<< listar todas as notícias A violência na construção
Eram cerca de 12 seguranças, a maior parte armada, com revólveres escondidos sob suas camisas. Saíam de dois automóveis: uma Hilux vermelha e um Gol prateado. Dirigiram-se a um bar, localizado numa pequena vila, ao lado do alojamento dos trabalhadores da obra da usina Santo Antônio, no rio Madeira. Era segunda-feira, 28 de junho, 11h30 da manhã e a reportagem do Brasil de Fato conversava com a dona do bar. Os homens notaram a presença de pessoas estranhas no local e um deles foi ter com a dona do bar. Após dez minutos, a reportagem se retirou do estabelecimento, assim como todos os seguranças.
A reportagem é de Eduardo Sales de Lima e publicada pelo jornal Brasil de Fato, 20-07-2010.
Tal fato ilustra a situação de extrema vigilância que envolve a construção da usina de Santo Antônio, em Porto Velho (RO). Além disso, elucida também mais um motivo da tensão entre os trabalhadores e o consórcio responsável pela obra, comandado pela Odebrecht.
De acordo com Joaquim*, ex-alojado e demitido pelo Consórcio Santo Antônio Civil, alguns policiais civis de Rondônia aproveitaram a greve ocorrida entre os dias 17 e 29 de junho para ganhar um dinheiro extra. “Ficaram à disposição da Odebrecht para trabalhar à paisana. São policiais que todo mundo conhece e trabalham lá ameaçando os colaboradores”, revela.
Antônio*, que trabalha no setor de Terra e Rocha, reforça essa informação. Segundo ele, além dos policias que trabalham como seguranças à paisana, seja da ativa ou aposentados, existem também aqueles que se apresentam como técnicos de segurança do trabalho.
A procuradora do trabalho Michelle Bastos Chermont pondera, no entanto, que se existir efetivamente um policial da ativa trabalhando para o consórcio, isso seria uma prática ilegal, pois um policial não pode prestar serviços de segurança. “Mas, quando eu fui lá, não vi nenhum”, diz.
O advogado Anderson Machado soma-se ao coro dos trabalhadores e reitera a presença de policiais. “Fotografamos e denunciamos isso no ano passado, havia vários trabalhando como seguranças”, argumenta Machado, que foi indicado pelo Ministério Público Federal para administrar, de setembro de 2009 a março de 2010, o Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Construção Civil do Estado de Rondônia (Sticcero).
De acordo com o sociólogo Luiz Fernando Novoa, esse esquema de segurança combina o aparato privado com o estatal, criando um sistema de vigilância mista aos trabalhadores, que os impede de se organizar e lutar por seus direitos. “Os consórcios procuram se prevenir contra o surgimento de lideranças capazes de confrontar e fazer com que esses projetos sejam redirecionados, interrompidos, rediscutidos, seja no universo dos trabalhadores da obra, seja no universo das comunidades atingidas”, explica.
Espionagem
No caso das obras da usina de Jirau, a 120 quilômetros de Porto Velho e que, ao lado de Santo Antônio compõe o Complexo Hidroelétrico do Rio Madeira, um caso bem divulgado pela imprensa de Rondônia foi o da presença do ex-chefe da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) em Roraima, coronel Gélio Fregapani. Contratado pela empresa Sagres Consultoria, que por sua vez foi contratada pela Camargo Corrêa para fazer o trabalho de espionagem, ele residiu em Porto Velho durante seis meses e se apresentava à população de Jaci-Paraná e Mutum-Paraná como escritor e garimpeiro. Segundo informações da imprensa local, Fregapani elaborou dossiês sobre cada liderança contrária às usinas, de ONGs e políticos que se colocam como “obstáculos” às obras.
Paulo Maldos, assessor político do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), escreveu em um artigo de 2008 que as investigações da Polícia Federal apontavam a participação de Fregapani como orientador de pistoleiros contratados por arrozeiros, “tanto para a fabricação das bombas incendiárias, como em táticas de guerrilha e na orientação da logística do ataque ao grupo de dez indígenas”, diz o texto.
Participações como a de Fregapani em torno de Jirau e de policiais civis em Santo Antônio revelam, de acordo com Luiz Fernando Novoa, que órgãos estatais têm se colocado inteiramente à disposição das empresas líderes dos dois consórcios. “Estamos observando operações paralelas clandestinas desses órgãos de repressão e que são encomendadas pelas empresas”, conclui.
*Os nomes são fictícios.
Fonte: Instituto Humanitas 22-07-2010 06:49:25 |